Oito herdeiros de linhagens rivais são forçados a proteger a Ânima, a esfera viva que mantém o continente unido, mas falham antes mesmo de aprender a coexistir.

O segundo erro é acreditar que algum deles vai sobreviver da mesma forma até o final.

Floresça por Mim

Sinopse

O continente está à beira do colapso mágico. A única esperança: recuperar a Ânima, uma relíquia ancestral que canaliza o poder de todas as linhagens feéricas e as separa, mas as separa. O problema? A missão está nas mãos de oito herdeiros jovens – mimados, disfuncionais e absolutamente incompatíveis.

Entre eles, Almi, princesa Noxen treinada para não confiar em ninguém que não seja como ela, é forçada a caminhar lado a lado com representantes de reinos inimigos – incluindo Halan, um Veridan insuportavelmente arrogante que parece viver para provocá-la. Mas, em meio a emboscadas, disfarces absurdos e alianças improváveis, o que começou como uma missão suicida se transforma num confronto com tudo que ela foi ensinada a odiar – e tudo que talvez precise aprender a amar.

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Trecho Gratuito — Floresça por Mim

O som das rodas corta o gramado úmido com um chiado que parece encostar na minha pele, como se a carruagem atravessasse o mundo só pra me lembrar onde não pertenço. A estrada se estende em linha torta entre palmeiras e flores abertas demais, vivas demais, derramando cor onde nada precisava chamar tanta atenção. O ar é quente de um jeito que fere; ondula diante dos meus olhos, pesado, doce demais, carregando cheiro de fruta madura e terra molhada, como se tudo aqui tivesse acabado de nascer só para me irritar.

Minha carruagem avança com uma lentidão azucrinante. Toda em prata polida e ferro frio, suas laterais brilham como se ainda carregassem o reflexo das neves do sul. Os entalhes nas runas antigas piscam com uma luz azul fraca, cansada, como se o encanto de proteção não tivesse sido feito pra um sol desses. Os cavalos, negros e altos, respiram ofegantes. As ferraduras brilham contra o chão, empurrando-o e sujando meu monumental meio de transporte.

Aqui dentro, o ar é pesado. O calor encurralado entre o veludo e a prata. O cheiro da poeira entra pelas frestas e se mistura ao perfume frio do metal encantado. Puxo o ar com esforço, me abanando com um pedaço de papel que já perdeu a forma. O suor escorre lento, mas eu me recuso a ceder.

Minha roupa não é feita para este lugar, mas é perfeita, mesmo assim.

O tecido pesado, de tom azul acinzentado profundo, carrega uma leveza que só existe na precisão: nas camadas sobrepostas, nas costuras invisíveis, na queda calculada das mangas amplas. Cada dobra foi pensada para se mover com leveza e comigo, não contra mim. Por baixo, outras camadas finas, em tons frios, se revelam quando o tecido se desloca com o movimento do corpo. A faixa na cintura mantém a postura e a hierarquia. Há poder no formato, na estrutura, no silêncio que ele impõe. Mesmo que o calor me castigue, jamais me permitirei parecer fora do meu lugar.

Bea me observa da frente oposta, com seus trajes leves e o rosto sereno. O cabelo preso com graça, a pele levemente corada. Já se adaptou, como sempre. O oposto exato de mim.

— Devia abrir mais a janela, Alteza. O ar ajuda. — ela diz, sem levantar os olhos do caderno.

— O ar aqui só me ajudaria a morrer mais devagar. — respondo, seca.

Ela ri, baixa, como se o calor tivesse abrandado até o humor.

Abro a cortina e o sol invade, violento, espalhando dourado por tudo. A paisagem é viva demais. O horizonte é uma pintura que grita. Árvores com folhas em chamas de cor, flores que crescem sobre as pedras, pássaros pequenos cortando o ar em linhas rápidas. Há gente na estrada – homens de pele morena, crianças rindo, vozes soltas. O som é leve, desorganizado, quase musical. Tudo aqui parece respirar sem pedir permissão.

Bonito, admito.
Mas bonito demais pro meu gosto.

Fecho a janela.

O reflexo da prata me devolve o rosto pálido, suado, e o olhar que aprendi a sustentar em qualquer clima: firme, imóvel e distante. O colar frio na base do pescoço agora queima. As runas gravadas nele brilham sob o calor, como se lembrassem a quem pertenço.

Bea fala algo sobre a chegada, sobre os cumprimentos, sobre a compostura. Eu deixo a voz dela se perder entre o ranger das rodas e o estalar dos cascos. O ritmo constante embala o desconforto, e o desconforto vira lembrança. Penso no norte, no ar cortante, no silêncio do gelo, no conforto.

O som muda. O chão já não é de terra, mas sim pedra. Estamos perto. Merda. No final, não há nada tão ruim que não possa piorar.

A carruagem desacelera. Ouço sinos ao longe, o farfalhar de bandeiras, passos e vozes misturadas. O ar parece mais quente, mais vivo.

Olho pela janela uma última vez. O castelo domina o horizonte. Pedras douradas, cortinas coloridas tremulando como asas, janelas abertas, o reflexo do sol se partindo em mil fragmentos de luz. Um espetáculo.

Mas não pra mim.

Eu fui feita pra lugares que não se desfazem com calor.
E, ainda assim, adivinhe onde estou.

Quando o veículo finalmente para, o ar lá fora parece vibrar de tanto calor. O servo se aproxima em silêncio, a pele bronzeada pelo mesmo sol que ameaça me derreter. Suas roupas são leves, o tecido se move com o vento como se o próprio corpo respirasse. Ele abre a porta.

E o calor entra, um baque seco. Um golpe quente e doce que invade o ar frio do interior e mata o pouco de conforto que restava.

Desço.

O chão é de pedra clara, polida, cintilando sob a luz branca e cruel. O calor sobe pelas solas espessas dos sapatos e se espalha pelas pernas, como se o próprio chão tentasse me engolir.

Pisco freneticamente. O brilho me cega por um instante.

O pátio se abre à frente, largo, cercado por fontes que lançam água cristalina em arcos perfeitos. O som é constante, fresco, mas não refresca. Apenas reforça o contraste entre o que sou e o que este lugar insiste em ser. Há flores por toda parte: azuis, douradas e vermelhas, cores que parecem escolhidas pra irritar. As pétalas tremem sob o vento morno, algumas se soltam e caem na água, girando em círculos lentos.

Um vento atravessa o espaço e toca o tecido das minhas roupas. As camadas se movem, suaves, mas o peso permanece. O tecido cintila em tons frios, mesmo sob o sol. Os fios prateados que adornam as mangas refletem a luz como escamas. Ainda que o calor tente dissolver minha compostura, eu mantenho a postura. Eu sempre mantenho.

O castelo à frente é uma calamidade. Pedra clara demais, janelas abertas demais, varandas decoradas com tecidos nos tons de todas as linhagens do continente. O portão principal é alto, ladeado por estátuas de criaturas que não reconheço; metade humanas, metade algo mais. O reflexo da água das fontes escorre nas paredes.

Por um instante, tudo está quieto. Nenhuma outra carruagem à vista, nenhum brasão rival. Sou a primeira.

Claro que sou, Noxens nunca chegam atrasados.

Bea desce logo atrás de mim. O rosto sereno, mesmo sob o calor que a faz brilhar.
— Um belo lugar, Alteza. — ela diz.

— É... extravagante demais. — respondo.

Cada pedra foi polida pra impressionar, cada cor pensada pra distrair. É um lugar feito pra exibir riqueza, não para merecê-la. Por dentro, algo se fecha e me lembro do motivo de estar aqui: a reunião dos herdeiros, o Conselho, a Ânima.

A esfera que sustenta o poder do continente, canalizando a magia de todos os reinos. O coração de tudo. Por tradição, cada geração de herdeiros a guarda por alguns anos antes de assumir os tronos. Uma forma de provar união entre linhagens que jamais foram unidas.

Mentira antiga. Todos sabem.

Os Veridans se acham os donos do mundo.
Os Sangven acreditam que dominam o frio e o calor.
Os Abissais acham que beleza é tudo.
Os Sortan confiam demais na própria sorte.
Os Khamet se escondem atrás da calma que fingem ter.
Os Cronidas se sentem inteligentes falando coisas sem sentido.
E nós, os Noxen, somos o que resta da lógica, os únicos que ainda lembram o valor da ordem.

Fomos chamados para “trabalharmos juntos”. Ridículo, cada um deles prefere o próprio reflexo a qualquer acordo.

Olho pro horizonte. Lá longe, uma linha escura se move: folhas levantando, carruagens se aproximando. Meu estômago se contrai num reflexo frio.

Bea percebe.
— Vai querer entrar antes deles? — pergunta, a voz baixa, medindo o terreno.

Não quero vê-los, ainda não.

— Vamos. — digo apenas.

Onde quer que eu esteja, continuo sendo Noxen. A diferença é que aqui, isso brilha mais do que deveria.

— Desejo que o castelo pegue fogo e todos morram lentamente.

Personagem

Almi Noxen

Almi Noxen é a herdeira de uma das linhagens mais temidas do continente. Reservada, observadora e estrategicamente afiada, Almi prefere analisar antes de agir e raramente desperdiça palavras. Quando fala, no entanto, as palavras não são esquecidas facilmente.

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